segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A ultima de Le corbusier

CONCLUÍDA MAIS DE 40 ANOS APÓS SUA MORTE, A IGREJA SAINT-PIERRE FINALIZA UM CONJUNTO URBANO DESENHADO POR LE CORBUSIER EM 1954 PARA A CIDADE DE FIRMINY, NA FRANÇA

POR ADRIANA FREIRE

Composto por uma casa de cultura, um estádio e uma unidade de habitação, o conjunto de Firminy, no interior da França, constitui uma idéia forte de Le Corbusier: a fusão perfeita entre três grandes atividades do homem: a vida cultural, o esporte e o culto. Esse projeto representa um dos seus últimos estudos e deve ser considerado uma obra-prima, tendo a mesma importância da Capela de Ronchamp (1955) e do Convento de la Tourette (1959).

Este exercício pretende explicitar as fases de desenvolvimento do projeto, levando em consideração que uma série de decisões de ordem técnica e de forma conduzirá ao seu êxito. A importância dessa análise está em reconhecer e destacar as decisões do projeto, identificar o sistema de ordem, os critérios básicos e seus elementos de concepção.

Para desenvolver o projeto, Le Corbusier recorre aos croquis de uma igreja desenhada para Tremblay em 1929. Nesses desenhos identificamos todos os princípios fundadores da Igreja de Firminy: a planta quadrada, a distribuição do programa em dois pavimentos, o acesso por uma rampa exterior e a imponente torre.

Porém, os primeiros croquis para a Igreja de Firminy datam de junho de 1961. Este estudo, a que chamaremos a primeira fase do projeto, conclui-se com a realização de uma primeira maquete, em fins de 1962, onde há uma evolução considerável em relação aos croquis de Tremblay.

Observando o projeto final, podemos concluir que ele respeita as idéias e princípios que fundamentaram sua concepção, marcado, porém, por algumas modificações importantes. A análise comparativa revela vários níveis de intervenção resultantes de origens diversas: adaptação às normas atuais (acesso à deficiente físico) e o tratamento de soluções não abordadas no anteprojeto. Porém, a evolução mais importante está no fato de o edifício ter sido destinado a um novo uso. Estas variáveis, quanto à disposição dos espaços e funções, são determinantes para o sistema de ordem espacial que, uma vez alterado, resulta numa nova reestruturação de todo o projeto.

Assim, a planta baixa e o primeiro pavimento unem-se em um único volume através de bancadas. Um caminho circular, à meia-altura, permite percorrer todas as salas e descobrir o jogo de volumes dos diferentes espaços. Aqui, a totalidade da experiência espacial foi alterada. A configuração em cruz dos eixos determinantes permanece, mas a maneira como o visitante deve percorrer esses espaços dá-se de forma contínua, pelas extremidades de cada ambiente.

Outros caminhos também são oferecidos aos visitantes. A partir do hall de entrada, longas escadas os conduzem a um nível rebaixado que se divide em duas partes distintas: salas de exposição com pé-direito duplo e espaços técnicos situados sob o hall de entrada e não visíveis em fachada. Nesse nível, no ângulo sudeste, inicia uma escada de dupla evolução permitindo acesso a todos os outros pavimentos. O acesso ao primeiro pavimento também pode ser feito por uma escada localizada no eixo da entrada e que se prolonga por uma passarela.

Fica claro que o exercício constante de adequação forma-função faz parte do raciocínio que encontra a forma em constituir-se.

Outros detalhes foram solucionados somente nessa fase do projeto. Na fachada leste, uma marquise autoportante foi introduzida para proteger a entrada do museu. Na fachada oeste, uma estrutura em pórtico intercepta o volume da base do edifício, funcionando como suporte da rampa exterior. A grande porta que determina o acesso principal foi realizada seguindo os modelos de Romchamp e la Tourette (metálica, esmaltada na superfície e pivotante num eixo vertical). Um estudo de cores foi realizado com o objetivo de transformar a entrada principal num grande painel de fundo. O mobiliário da igreja (altar principal e sua coluna estrutural, altar menor, púlpito, bancos) foi realizado em concreto branco, destacando esses elementos na composição.

Jogo de luz
Um interessante estudo foi realizado para a disposição da luz no edifício. Nos primeiros croquis de Le Corbusier, há na fachada leste uma abertura em forma de rosácea, como designado pelo próprio arquiteto em suas anotações. Essa solução permanece até a segunda fase do projeto. Com a retomada da construção em 2003, a idéia é abandonada, pois comprometeria a estrutura do tronco de pirâmide. Como solução de iluminação, pequenos orifícios são introduzidos na fachada leste, desenhando a constelação de Orion e atuando como pano de fundo do altar principal.

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