sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Futuro Da Arquitetura

Le Corbusier, tido como papa da arquitetura moderna, propôs que a construção de casas não fosse algo livre e pessoal como fazer compras de supermercado ou de roupas. Ele sonhava com um mundo onde fábricas cuspissem residências prontas para serem usadas por qualquer ser humano do planeta. Eram as 'máquinas de morar’, que levavam a extremos os cânones chamados 'cinco pontos da arquitetura’, que ele tinha como imprescindíveis ao projeto de residências. A partir dali, nada mais era arquitetura, ninguém mais poderia fazê-la.
Prepotências a parte, Le Corbusier é tido como um dos maiores arquitetos do mundo não pelos seus projetos em si, mas porque ele foi o primeiro grande visionário a acreditar que poderia projetar um futuro da civilização. Nos filmes vimos carros voadores, roupas metálicas, comida em cápsulas e robôs substituindo-nos em nossos afazeres. De 2001, uma Odisséia do Espaço a Jetsons, todos nós já tivemos uma fantasia de futuro. Mas a verdade é que o futuro já chegou, e nada daquilo realmente aconteceu.

Ao longo do século XX, vários arquitetos e escritórios vieram com idéias mirabolantes de como viveríamos dali a 20, 30, 100 anos. O Archigram talvez seja o grupo com as idéias mais interessantes, com suas cidades ambulantes nos anos 60, que vagavam atrás de conexões com outras. Verner Panton foi o mais pé-no-chão, trazendo esse imaginário futurista para dentro das casas da mesma época, com muito apuro estético e pouco deslumbre.

Por aqui tivemos um grande idealista, que foi o arquiteto Eduardo Longo. Ele construiu sobre sua casa uma maquete em tamanho quase real do que seria o protótipo da casa industrial ideal: uma casa que saia pronta da fábrica, que poderia ser colocada em qualquer lugar, ainda mais que a de Le Corbusier, pois já vinha moldada com privada, fogão, varal, etc, e se sustentava sobre um único pilar. Nascia a Casa Bola. O protótipo rendeu uma outra casa para os pais do arquiteto no Morumbi, mas esta já se afastava completamente do ideal inicial. Hoje ela paira desconfortavelmente numa localização privilegiada da cidade, com cara de brinquedo de parque de diversões.

O japonês Kisho Kurokawa imaginou outro futuro, em que as pessoas se compartimentariam ao mínimo, e criou a cápsula para morar. Construiu inclusive um prédio inteiro de cápsulas que chegou a ser inteiramente ocupado. Pois nem os espremidos moradores de Tókio se convenceram da idéia e o edifício deve ser demolido este ano para dar lugar a mais uma gigantesca torre de apartamentos não-tão pequenos.

Onde foi parar o futuro? O que podem imaginar os arquitetos como utopias que pelo menos norteiem a produção edificante daqui para frente? Hoje tudo que se projeta suporta-se sobre os pilares da qualidade de vida, da sustentabilidade e da ecologia. Ok, estamos perto do fim do mundo, ninguém pode negar. Mas estamos já tão perto que perdemos a chance de imaginar-nos daqui a 50 anos? Estamos fadados a imaginar apenas uma forma menos agressiva de habitar o mundo pelo tempo que nos resta e tentar reparar minimamente o estrago que 5 mil anos de humanidade causou? Eu ainda tenho esperança de usar roupa metálica e ter um robô-faxineira.
Link do post real: http://rseefo.com.br/?tag=villa-savoye

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